domingo, 9 de setembro de 2012

Convidado do dia: Alexandre Fernandes

Hoje apresento uma crítica de um convidado, Alexandre Fernandes, também apreciador de cinema. Querendo divertir-se um bocado, foi visionar a terceira parte de "Balas e Bolinhos". Segue-se a sua crítica:
 
"(Re)View Balas e Bolinhos 3 - O último capítulo
Balas e Bolinhos 3 leva-nos a uma viagem pelo norte de Portugal, ali na zona de Matosinhos onde 4 amigos se vão encontrar nas situações mais caricatas. A história começa com a chegada de Toni a Portugal que vem da China para saber do estado de saúde do pai, o qual precisa de um fígado novo. Toni precisa de arranjar dinheiro para comprar um fígado e para isso vai ao encontro dos seus velhos amigos: Rato, Culatra e Bino. Este 4 vão-se ver confrontados por 3 ou 4 sub-histórias: a de um grupo mafioso que trafica explosivos, a de um grupo de motards indianos e a de um acampamento de ciganos.
 
Pontos negativos: Em determinada altura do filme é difícil perceber certas passagens e muitas das vezes o sotaque dificulta muito a compreensão das falas. O facto de ser um filme com baixo orçamento faz com que muitas vezes se tenha de improvisar algumas cenas como as de perseguição e luta, o que é compreensível nestes tipos de filmes.
Pontos Positivos: As piadas de cariz badalhoco e javardo com uma mistura de mural no meio fazem qualquer um rir até não poder mais. As personagens estão muito bem enquadradas na história, sendo que o Bino parece um Mr. Bean no filme sem saber o que fazer e o que dizer. Por fim, a junção destas 4 personagens consegue fazer com que uma comédia portuguesa tenha tido a sua estreia no cinema nacional.
 
O filme é muito divertido, tendo ao longo do filme muitas piadas típicas da zona do norte do país. A quantidade de palavrões no filme é um factor negativo, o filme também é pouco apelativo a famílias que queiram ver um filme português e de comédia, o que é raro nos dias de hoje. Fora isso, é um filme para ir ver com os amigos e rir até não poder mais.
 
A minha avaliação : 7.5/10

A.F."




Festival de Cinema de Veneza

Este ano realizou-se o 69º Festival de Cinema de Veneza. Mais uma vez, realizadores reconhecidos e novos mostraran os seus mais recentes trabalhos, enquanto actores e actrizes posaram para as máquinas fotográficas de repórteres de todo o mundo. O director do júri foi o realizador norte-americano Michael Mann.
A concurso estiveram obras de  Brillante Mendonza (Sinapupunan), Terrence Malick (To The Wonder), Paul Thomas Jefferson (The Master), Olivier Assayas (Après Mai), Brian de Palma (Passion) ou Takeshi Kitano (Outrage Beyond, sequela de Outrage, ainda por estrear em Portugal). Novas caras no mundo da realização mostraram os seus filmes na Semana dos Críticos e mesmo na competição oficial e na secção Dias dos Autores foram mostrados filmes ditos independentes.
Vários críticos consideraram a colheita de filmes de 2012 de qualidade inferior à de outros anos. Todavia, há sempre alguém que goste e desgoste de determinados filmes. Os principais vencedores deste ano foram:
 
Leão de Ouro: Pietà, de Kim Ki-duk
Leão de Prata para Melhor Realização: The Master, de Paul Thomas Jefferson.
Prémio Especial do Júri: Paradies: Gaudes, de Ulrich Seidl
Melhor Argumento: Olivier Assayas, Après Mai
Melhor Fotografia: Daniele Ciprì, È Stato il Figlio
Prémio Luigi de Laurentiis, Leão do Futuro, para Melhor Filme de um Novo Realizador: Kuf, de Ali Aydin
 
Taça Volpi para Melhor Actor: Phillip Seymour Hoffman e Joaquin Phoenix, The Master
Taça Volpi para Melhor Actriz: Hadas Yaron, Lemale et Ha'Chalal
Prémio Marcello Mastroianni para Actor ou Actriz Revelação: Fabrizio Falco, Bella Addormentata e È Stato il Figlio
Leão de Ouro para uma Carreira no Cinema: Francesco Rosi.
 
Kim Ki-duk a exibir o seu Leão de Ouro pelo filme Pietà
 

quinta-feira, 6 de setembro de 2012

Estreias da semana

Mais uma semana, mais estreias invadem os cinemas.

  • "Balas e Bolinhos 3 - O Último Capítulo", de Luís Ismael, com Luís Ismael, Jorge Neto. País: Portugal. Duração: 85 minutos. Na última parte desta trilogia cómica de origem portuguesa Culatra, Rato e Bino regressam às suas aventuras e desventuras. As vidas dos três criminosos trapalhões continuam difíceis, mas a chegada de um antigo conhecido, Tone, que veio ajudar o pai a superar um complicado problema de saúde, vai piorar o panorama. Os quatros embarcam numa viagem incrível repleta de problemas de situações rocambolescas.
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  • "Os Humanos", The Divide, de Xavier Gens, com Michael Biehn, Lauren German. País: E.U.A. Duração: 112 minutos. Com a queda de uma bomba atómica em Nova Iorque, oito vizinhos que praticamente não se conhecem abrigam-se na cave profunda do prédio que habitam. As condições do local, como a temperatura elevada e a falta de mantimentos, começam a afectar rapidamente os vizinhos tanto a nível físico como psicológico. A mais jovem inquilina, Julie, observando os comportamentos provocados pelo isolamento, percebe que só através do egoísmo e e alguma maldade conseguirá sobreviver.
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  • "Ruby Sparks - Uma Mulher de Sonho", Ruby Sparks, de Jonathan Dayton, Valerie Faris, com Paul Dano, Zoe Kazan. País: E.U.A. Duração: 104 minutos. Calvin, um jovem escritor de sucesso, cria uma personagem literária de nome Ruby Sparks, pela qual começa inesperadamente a apaixonar-se. Uma semana após a criação de Ruby, Calvin encontra-a, transformada numa mulher de carne e osso, sentada no sofá do seu apartamento. Além disso, se o jovem acrescenta um novo detalhe à descrição da Ruby literária, este torna-se realidade. Como lidará Calvin com esta mulher e que fim terá o romance por ela protagonizado?
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  • "Selvagens", Savages, de Oliver Stone, com Blake Lively, Benicio del Toro. País: E.U.A. Duração: 131 minutos. Ben e Chon, dois jovens empresários, partilham um negócio de plantação e venda de marijuana e o amor de uma rapariga, Ophelia. Um dia, Ophelia é raptada por um quartel de droga bastante violento que vai testar os laços empresariais entre Ben e Chon, que se irão aliar a um agente corrupto para salvar a amada e desmantelar aquele quartel.
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  • "Terapia a Dois", Hope Springs, de David Frankel, com Tommy Lee Jones, Meryl Streep. País: E.U.A. Duração: 100 minutos. Após três décadas de dedicação ao casamento e aos filhos, Kay e Arnold começam a sentir algum tédio e desejam contrariá-lo e reavivar a sua relação. Ambos partem, um pouco contra a vontade de Arnold, para a cidadela de Great Hope Springs, onde estão dispostos a serem submetidos a uma semana de sessões de aconselhamento conjugal organizadas por um afamado especialista. Conseguirá o casal afastar as suas desavenças e reatar o fogo amoroso que os uniu?

quinta-feira, 30 de agosto de 2012

Estreias da semana

Estas são as cinco estreias desta semana:
 
  • "Bonsai", Bonsái, de Cristián Jiménez, com Nathalia Galgani, Diego Noguera. País: Chile. Duração: 95 minutos. Julio, um tímido apreciador da obras de Marcel Proust e estudante de Literatura, apaixona-se por Emilia, uma colega mais interessada no movimento punk. Mais tarde, para conseguir conquistar o coração de uma nova amada, Julio começa a escrever um livro em que aborda a sua primeira experiência amorosa, fingindo tratar-se de um texto que está a editar. O jovem irá assim recordar o seu primeiro amor e a inocência perdida enquanto é explorada a sua relação com as mulheres e os livros.
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  • "Desafio Total", Total Recall, de Len Wiseman, com Colin Farrell, Kate Beckinsale. País: E.U.A. Duração: 118 minutos. Trata-se de um filme inspirado num conto de Phillip K. Dick e na película homónima de 1990, igualmente baseada nesse texto. Douglas Quaid, um trabalhador numa fábrica com uma relação amorosa estável, visita a empresa Rekall para quebrar a monotonia da sua vida. Na Rekall, os sonhos podem transformar-se em memórias reais, pelo que Quaid vai solicitar que no seu passado constem aventuras de espionagem. No entanto, algo corre mal durante o processo de transformação dos sonhos em memórias e Quaid descobre que se tornou num homem perseguido pela polícia.
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  • "Morangos com Açúcar: O Filme", de Hugo de Sousa, com Sara Matos, Lourenço Ortigão. País: Portugal. Duração: 85 minutos. Diversas jovens personagens, algumas já conhecidas do público da telenovela em que se baseia este filme, vão aproveitar as férias ao máximo, entre praias e parques de recriação, vivendo o amor e o desamor, a euforia e a diversão. Porém, o grande evento do Verão é um festival de bandas musicais que trará muita alegria, emoção e cor aos jovens.
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  • "Oslo, 31 de Agosto", Oslo, 31. August, de Joachim Trier, com Anders Danielsen Lie, Ingrid Olava. País: Noruega. Duração: 95 minutos. Nesta obra já premiada em festivais e muito elogiada pelo público, o protagonista é Anders, um homem que está prestes a terminar um tratamento de desintoxicação e que recebe uma permissão de um dia para ir a Oslo ser entrevistado para um emprego.  Anders aproveita para deambular pela cidade, reencontrar pessoas conhecidas e pensar na sua vida - sente-se velho pelas oportunidades perdidas e pelo quanto magoou certas pessoas. Ao chegar a noite, ele percebe que a sua vida não acabou e que poderá voltar a sentir o amor, começar uma nova etapa e ter esperança num futuro melhor.
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  • "As Mulheres são Heroínas - Women are Heroes", Women are Heroes, de JR, documentário. País: França. Duração: 85 minutos. O artista francês JR viaja até vários locais pouco favorecidos da África, da América do Sul e da Ásia. JR transforma ruelas, muros, favelas em galerias de arte urbana, enfrentado os transuentes com uma nova forma de beleza e assuntos actuais. Apresenta mulheres de diversas origens em diferentes situações através da arte, da filmagem, tentando contar histórias sobre o que nos une enquanto humanos.

segunda-feira, 27 de agosto de 2012

Coragem, risos, ternura

Visionei anteontem com um grupo de amigos o novo filme da Disney e da Pixar, "Brave - Indomável", realizado por Brenda Chapman, Mark Andrews e Steve Purcell e dedicado a Steve Jobs. A versão escolhida foi a original em duas dimensões, por interesse em escutar o sotaque escocês natural a alguns dos dobradores britânicos e que os restantes tentaram recriar com sucesso.
Antes do filme ser exibido, uma curta-metragem dos mesmos estúdios, La Luna, de Enrico Casarosa e nomeada para o Óscar de 2012 para Melhor Curta-Metragem Animada, encheu o ecrã. Tratava-se de um belo e cintilante conto centrado em dois idosos e um menino que cuidam e ajudam a Lua a mudar de fases.
 
"Brave - Indomável" narra as vivências de Merida, uma princesa escocesa de longos cabelos ruivos e filha primogénita dos reis, que se destaca pelo seu carácter aventureiro, o conhecimento que tem das florestas à volta do castelo e as suas habilidades, como montar a cavalo, dedicar tempo à falcoaria e dominar o arco e a flecha, estas duas últimas consideradas pouco femininas pela mãe, a rainha Elinor.
Quando Merida alcança uma determinada idade, a mãe propõe a três lordes das proximidades que convidem os seus primogénitos a pedir a mão da filha em casamento. Surpreendentemente, todos os lordes, MacGuffin, Macintosh e Dingwall, aceitam a proposta e viajam até ao ao centro do reino com os filhos mais velhos. Devido ao número de pretendentes, jovens serão forçados a vencer um torneio para poderem casar com a princesa. Merida, nada satisfeita com o plano que a rainha estava a esboçar nas suas costas, decide que os três terão de lutar por ela num torneio de arco e flecha.
No dia da prova de arco e flecha, Merida revela as razões da sua escolha, sendo o principal o de vencer os príncipes e permanecer solteira, quebrando os cânones. Como seria de esperar, a experiência e a valentia de Merida ajudam-na ser declarada a melhor arqueira. Porém, a ousadia da princesa é posta em causa, além de irritar bastante a rainha Elinor.
Merida recusa-se a ceder ao destino que a mãe tem traçado para ela e, enquanto tenta acalmar-se na floresta, depara-se com uma bruxa que realiza um feitiço que supostamente ajudará a princesa a traçar o futuro de acordo com o que dita o seu coração. No entanto, o feitiço é na realidade uma maldição que Merida terá de enfrentar com coragem, maturidade e o poder do seu coração.

Mais uma vez, os estúdios Pixar oferecem aos seus fãs uma belíssima película sobre o amor, a amizade, a bravura e a necessidade de defender os nossos ideais. É um filme que contém bastante mais momentos cómicos do que o trailer parece anunciar, apresentando igualmente momentos muito ternurentos. Apesar de a narrativa conter alguns elementos e traços familiares a este tipo de filme, tem um calor própio dos clássicos do cinema animado e dos contos de fadas e uma mescla de pormenores que tornam "Brave - Indomável" numa obra muito recomendável.
Os aspectos técnicos estão bem conseguidos. A animação digital tem fluidez, os espaços revelam um  minucioso estudo prévio, o sotaque escocês está presente em todos os diálogos e a banda sonora recorda a música de influência celta com referência a elementos da natureza. Mesmo a mitologia local, a presença forte da figura temida do urso ou as pequenas chamas de fogo-fátuo surgem em Brave.
As personagens são carismáticas e Merida, a primeira princesa de um filme assinado pela Pixar, é a representação da força que a nossa insistência e a nossa vontade podem ter.

quinta-feira, 23 de agosto de 2012

Estreias da semana

São estas as estreias nas salas portugueses nesta semana de 23 de Agosto de 2012:
 
  • "2 Dias em Nova Iorque", 2 Days in New York, de Julie Delpy, com Chris Rock, Julie Delpy. Países: Alemanha, Bélgica, França. Duração: 96 minutos. Trata-se da sequela do filme igualmente realizado por Delpy, "2 Dias em Paris". Marion separou-se de Jack e vive em Nova com os filhos e o novo namorado, Mingus, que também tem rebentos de uma relação anterior. A pouco tempo de ter lugar uma exposição de fotografias de Marion, o pai e a irmã decidem visitá-la inesperadamente. Sucede então, ao longo da estadia, um choque entre a cultura norte-americana cosmopolita do novo casal e da família estranha e extravagante de Paris, que teve o infortúnio de convidar o ex-companheiro para ver a exposição e para rever Marion.
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  • "360: A Vida é um Círculo Perfeito", 360, de Fernando Meirelles, com Jude Law, Rachel Weisz. Países: Áustria, França, Brasil, Reino Unido. Duração: 110 minutos. O filme é inspirado pela obra A Roda, de Arthur Schnitzler e a narrativa traça uma rede de ligações pessoais que se entrelaçam e que percorrem todo o mundo. Tudo é desencadeado pela promessa de fidelidade de um marido à sua mulher, passando por crises e revoluções e o poder do amor.
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  • "O Legado de Bourne", The Bourne Legacy, de Tony Gilroy, com Jeremy Renner, Rachel Weisz. País: E.U.A. Duração: 135 minutos. A trama dos anteriores filmes da série é expandida e sofre importantes alterações. Aaron Cross, um novo protagonista, vai lidar com as consequências das aventuras do Jason Bourne cinematográfico lhe impõem.
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  • "O Samaritano", The Samaritan, de David Weaver, com Ruth Negga, Samuel L. Jackson. País: Canadá. Duração: 90 minutos. Após um quarto de século na cadeia, Foley decide recomeçar uma nova vida sem criminalidade. No entanto, o filho de um antigo sócio quer que ele o ajude num plano. Foley tenta afastar-se do seu passado, mas os segredos que o jovem Ethan partilha com ele e a insistência do mesmo não querem permitir que Foley abandone o seu velho eu e recomece uma nova etapa com uma nova mulher, Iris.
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  • "Piranha XXL", Piranha 3DD, de John Gulager, com Christopher Lloyd,  Ving Rhames. País: E.U.A. Duração: 83 minutos. Na sequela de "Piranha", os sanguinários peixes invadem um novo parque aquático. Os directores do parque e um grupo de estudiosos terá de perceber como capturar as piranhas e evitar assim o caos.

terça-feira, 21 de agosto de 2012

O fim do mundo segundo Ferrara

A semana passada visionei o mais recente filme do realizador nova-iorquino Abel Ferrara, "4:44 Último Dia na Terra", que já esteve a concurso em vários festivais de cinema como o de Veneza e Lisboa & Estoril. Apesar de bem recebido por vários críticos, teve pouco sucesso comercial e não atraiu a atenção dos mídia.

A acção do filme decorre na Nova-Iorque actual e a narrativa inicia-se na tarde da véspera do último dia da humanidade na Terra. A camada de ozono que cobre o planeta dissipar-se-á mais ou menos às 4:44 da madrugada seguinte, permitindo ao Sol penetrar o planeta com toda a sua força e dizimar a maior parte dos seres que nele habitam, humanos incluídos. Não há maneira nem meios para escapar à tragédia e poucos são os que contestam o fim.
Cisco, divorciado e com uma filha, e Skye, pintora, vivem juntos num apartamento e desfrutam das suas últimas horas juntos, fazendo os possíveis para manter a sanidade e aproveitando para despedir-se dos familiares, dos amigos e da cidade através da tecnologia e de uma última caminhada pela zona.

"4:44 Último Dia na Terra" é uma obra trágica com personagens que parecem aceitar os seus destinos sem questionarem o inevitável. No entanto, esta aceitação é bem mais complexa  do que aparenta e um dos protagonistas tem até a infelicidade de testemunhar um par de suicídios e experimentar a vontade de realizar acções, como consumir drogas injectáveis, ao perceber que não mais verá a filha nem a amante nem os que o rodeiam. Abel Ferrara assina aqui um drama com umas pitadas de ficção-científica; não há, porém, que tentar compreender as teorias são explicadas brevemente no filme e porão fim à vida humana. 4:44 Last Day on Earth não pretende perder o tempo com a ciência, mesmo contado com a presença de Al Gore e de documentários sobre o que conduziu a humanidade à tragédia, visto que o que interessa mostrar ao espectador são as reacções humanas prévias ao final da madrugada. No fundo, quer-se que o espectador se pergunte o que faria numa situação semelhante, com pouco tempo para viver, poucas oportunidades a aproveitar e com um grande ser sobre os ombros a relembrar-lhe que não falta muito para se juntar ao pó e às cinzas.
A representação está bem trabalhada na película, apostando no realismo das emoções e no retrato do medo de tudo perder e creio que a presença de uma diversidade de personagens é benéfica: além do contraste entre as personalidades de Cisco e Skye e entre os modos de pensar dos homens que falam nas televisões (Dalai Lama, Al Gore, um suposto guru e instrutor de ioga que Skye escuta com atenção), há os familiares dos protagonistas, o jovem vietnamita que entrega a sua última refeição ao domicílio e a quem é emprestado o portátil para uma última chamada por Skype aos pais, as pessoas que circulam nos seus carros a caminho de casa e amigos que querem voltar a drogar-se e a beber, já que nada mais podem fazer. Esta abundância de situações preenchem a narrativa, permitindo explorar um microcosmos (Cisco/Skye) e a humanidade em geral, tanto em Nova-Iorque, como noutras cidades, inclusive através das televisões.
Muitos recordarão o filme "Melancolia", de Lars von Trier, que abordava uma temática semelhante. Contudo, a possibilidade de o mundo acabar nesse filme não é tão inconstestável e o núcleo de personagens e a área que surgem são mais restritos. A família retratada apresenta uma frieza maior que as personagens de Ferrara e parece querer isolar-se numa propriedade, como que tentando escapar do ruído do mundo e encarar o destino sem nervosismo e sem tristeza. Ambos filmes são bons, mas considerá-los mais do que isso seria exagerado. O título aqui criticado, de Ferrara, aparenta ser melhor que o de von Trier.
"4:44 Último Dia na Terra" tem defeitos. A narrativa e as personagens parecem não ter sido totalmente exploradas e a inclusão de pensamentos mais filosóficos e de mais um que outro diálogo faria bem ao filme. Mas vê-lo é uma experiência interessante.